Sandra Vidal Nogueira*

Segundo dados do Censo de 2010, realizado pelo Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), a população total no Brasil é de 190.732.694 habitantes, sendo 84,35% (160.879.708) residentes em área urbana e 15,65% (29.852.986) residentes em área rural. Os homens representam 52,1% da população rural, enquanto as mulheres correspondem a quase metade da população rural, perfazendo 47,9%. As mulheres correspondem 66,4 % das pessoas economicamente inativas, já os homens representam 62,1% das pessoas economicamente ativas, assim como, 25,2% dos homens estão ocupados na agropecuária sem rendimento. Dentre as mulheres que estão ocupadas na agropecuária, salienta-se que 77,9% estão na faixa de sem rendimento.

Muito se tem avançado nos últimos anos na agenda de debates sobre esse tema, como por exemplo, na conquista dos direitos igualitários a terra na reforma agrária, no acesso aos direitos sociais e especialmente na previdência social e no reconhecimento dos direitos trabalhistas das mulheres como agricultoras.

As mulheres participam das atividades na agricultura e se responsabilizam pelo espaço dos quintais. É expressiva a atuação delas na olericultura, na transformação dos alimentos e no trato dos animais de pequeno porte, destinados ao consumo direto da família. Contudo, na produção das pequenas propriedades de subsistência, lhe é atribuido um valor agregado menor pelas tarefas executadas.

Baseado numa noção idealizada de organização da vida familiar rural o feminino que auxilia nas tarefas parece ser sua condição inata. Essa gritante invisibilidade do trabalho das mulheres do campo é notória para além dos limites da geografia da casa e das tarefas domésticas.

O fato do trabalho das mulheres ser entendido como uma ‘ação de ajuda’, ao qual, não poucas vezes mães e filhos/as pertencentes à unidade familiar vão com marido e pai realizar atividades na condição de assalariados, torna o pagamento recebido único e estabelecido a partir da tarefa feita e da produção realizada, portanto, indivisível e feito somente ao chefe de família.

O que na realidade permanece oculto neste cenário de relações assimétricas entre mulheres e homens que vivem no campo é um modelo masculino (e também aceitas muitas vezes pelas próprias mulheres) hegemônico, que reproduz a ideia preconcebida das mulheres complementarem os fazeres dos homens com uma métrica de desvalor na geração de renda familiar e de suas comunidades.

Em síntese, constata-se que as atividades das mulheres do campo consistem, sobretudo, em fornecer cuidados e ocupar-se dos outros (marido, filhos/as e demais familiares) e não se consagram ao universo econômico em suas esferas decisórias e de resultados, propriamente ditas. Quero dizer com isto que a cultura brasileira conferiu às mulheres do campo uma condição de inferioridade de tal modo, que as tornou invisíveis nas relações de trabalho. Acrescenta-se a isto, a percepção da estreita proximidade entre as desigualdades de gênero e as desigualdades de classe, que acabam ficando camufladas.

Sob tal ponto de vista, reafirma-se a urgência de espaços formativos mais qualificados nas comunidades, sindicatos, governos e instituições educativas, referenciados por estudos e pesquisas atualizados e que abordem a situação das mulheres do campo, não somente em função dos contextos de trabalho, mas em todas as suas interfaces, ampliando a questão,  ou seja, na perspectiva dos indicadores de classe social, geração e etnia.

*Sandra Vidal Nogueira é professora da UFFS Campus Cerro Largo.

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