Caco Barcellos instiga reflexão sobre cotidiano de extremos

Para o jornalista, profissionais de comunicação devem decidir qual realidade focar

GRAMADO – Quando a população de um país vive realidades extremamente distintas, os comunicadores precisam decidir de que lado falar. A escolha, aparentemente simples, reserva uma grande oportunidade de fazer a diferença. Esta foi uma das provocações feitas pelo jornalista Caco Barcellos, que, ao lado da apresentadora Regina Casé, conduz o painel de encerramento do 21º Festival Mundial de Publicidade de Gramado. “Você pode escolher contar histórias de pessoas bem-sucedidas ou pode contar histórias como a do seu João, que ficou oito meses aguardando uma quimioterapia”, instigou.

 

Em sua apresentação, Caco dividiu o público em dois, para representar a desigualmente social do País. Com números, demonstrou que a população pobre é principal alvo de violência policial, sendo os negros cerca de 75% dos mortos pela Polícia Militar de São Paulo. “Nunca um cidadão do lado de cá sofreu em um dia o mesmo que um morador da favela. Estamos no mesmo país, com a mesma força de segurança, mas veja como é o tratamento dado a um preso da Lava Jato. Do outro lado, basta o prejuízo de um roubo de celular para a punição ser um tiro nas costas. E, do lado de cá, ninguém pergunta: por quê?”

Durante a cobertura policial, Caco relatou que a maior parte da imprensa não sobe o morro, apenas acompanha a operação a distância. Ao recordar o filme Tropa de Elite, em que um tiro de fuzil atinge uma viatura da polícia, disse: “O que o filme não mostra é que o mesmo projétil tem poder de força para atravessar sete barracos de alvenaria. Diga: vocês sabem o nome de um dos atingidos? Se não sabem, não é culpa de vocês. Não sabem porque ninguém informou, porque não subiram o morro. E por que não? A escolha é de vocês.”

Para o jornalista, é tarefa do profissional de comunicação decidir de que lado focar. Ao gerar informação, a sociedade ganha em capacidade de organização e poder de pressão. Ele, com seu Profissão Repórter, decidiu olhar para a comunidade. “Quando a gente entra na favela, não conquista só audiência, conquista confiança”, analisou o jornalista.

Antes de iniciar este último painel, Caco recebeu a Medalha Maurício Sirotsky Sobrinho, concedida pelo Grupo RBS. “É preciso decidir de quem você irá falar. Nos último 10 anos, tenho dividido esse trabalho com os jovens do Profissão Repórter e preciso agradecer a cada uma dessas pessoas, que me fizeram ganhar essa homenagem.” Em uma década no ar, o programa contou com 36 repórteres e produziu quase mil pautas.

Fonte: Coletiva.net

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