Maria Júlia Rodrigues dos Santos: A abençoada mulher de mãos iluminadas

Texto da Profª Maria Inez Flores Pedroso

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Maria Júlia Rodrigues dos Santos, nascida em 01 de julho de 1916, tem muitas histórias para contar. As mãos que hoje benzem e derramam bênçãos aos que a ela recorrem, são imagens de uma mulher trabalhadeira, persistente, que não negava forças para criar os filhos e sustentar a família. Sua história de vida é marcante. Fatos relatados comprovam que ela acompanhou e auxiliou no desenvolvimento da Estação Esquina, povoado edificado em terras pertencentes ao Cel. Bráulio Oliveira, que mandou medir e dividir em lotes urbanos uma grande área de sua propriedade.

— O nome daqui era Estação.  Estação Esquina. Aqui tudo era mato. O moinho era tocado a fogo, não tinha caminhão, não tinha auto, só carroça, carroça e carroça no estradão que se ia. O único bolicho que tinha era longe, em direção a Santa Rosa, quase em frente onde hoje é o quartel, nós caminhávamos muito para fazer compras.  Mais tarde  Pedro Deon tinha um moinho de milho e descascador de arroz e casa de negócio. Também o Camilo Beltrame era comerciário.

Trabalhadeira, exerceu inúmeras atividades: cortou soja, ajudou a ensacar a colheita, carpiu, plantou mandioca, lavou roupas, limpou casas, cortou lenha. Viu a estação Férrea ser construída, inclusive ajudou na construção.

— Com meus irmãos mais velhos, eu falquejei dormentes para a Estação Ferroviária. Ajudei na fabricação de dormentes para botar os ferros em cima.  Quando eu vim pra cá não tinha trem, tudo era mato. Depois veio de fora uma gentarada para carregar dormente. Aqui tinha depósito de viga, de palanque, depósito de dormente, aí que veio a ferroviária para cá.

Trabalhou para várias famílias de Cruzeiro como a de Tinzinho Leite de Oliveira, Siliprandi, Beltrame; também costurou bolsas para a empresa Germano Dockhorn.

— Terminava um fardo de bolsa, vinha outro para eu remendar.  Tinha que lavar as bolsas brancas, passar e entregar. Eu passei trabalho, vizinha. Diz dona Júlia para ressaltar o quanto trabalhou.

Freqüentou o Clube de Mães Oliva Oliveira Viñas, fundada em 1968, por Dona Cecília de Oliveira Carvalho.

— A Dona Cecília era muito boa pra mim, recorda-se a vó Júlia.

Nas atividades do clube, trançava palhas de trigo, milho, butiá, descascava guaimbê.

— Fiz muitos chinelos de palha de milho.  O  guaimbê nós lascava, botava para secar e depois fazia cestos. Fiz tapetes, ajudei a fazer acolchoados para irem para fora.

Certo dia acordou de manhãzinha e ficou a pensar. O sonho que tivera na noite anterior foi especial, tão natural que parecia ser verdadeiro.  No sonho, uma mulher chegou à sua casa e disse “— Eu vim aqui para a senhora me curar. Faz cinco dias e cinco noites que eu não como e não durmo de dor de dente.” Naquela manhã, o marido ouviu Dona Júlia conversando com alguém e perguntou:

— Com quem estava conversando?

— Uma mulher veio  me pedir para eu benzê-la e eu disse que não sabia. Aí veio uma voz e me disse: “— Como é que você não sabe, se a Conceição  te ensinou?” Aí, meu marido foi trabalhar e lá pelas nove horas chegaram três mulheres. Uma delas estava papuda de dor de dente e me disse: “— Eu não como e não durmo por causa da dor de dente”. Eu disse para ela que agora ela ia chegar a casa e ia dormir e depois tomar uma sopa. Conversamos, conversamos e elas foram embora. Umas horas depois, o guri que estava com elas veio me dizer que ela tinha dormido bastante e quando levantou tomou dois pratos de  sopa.

A partir daí, muitas pessoas visitam a Vó Júlia, moradora da Vila Speroni, no Bairro Cruzeiro, para serem benzidas por suas mãos iluminadas e abençoadas por Nossa Senhora da Conceição, que é a sua mentora espiritual.

— Todos que vêm aqui, com dores ou enfermidades, eu rezo a Nossa Senhora da Conceição para que atenda meus pedidos, para Deus nada é impossível.

Vó Júlia, mulher pequena no porte físico, mas de grandeza espiritual enorme, simboliza uma fortaleza erguida pela sabedoria, humildade e fé.

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