por Sandra Vidal Nogueira*

Os áudios da gravação divulgados entre Joesley Batista, o dono do Grupo J&F e seu executivo, Ricardo Saud, apresentam narrativas nada republicanas sobre as negociatas articuladas, em sua maioria por homens, nos submundos dos poderes políticos e econômicos do país.

A partir de um pensar entorpecido pelo empoderamento produzido pelo grande capital, Joesley assim se define: “(…) só tem um louco dentro do planeta Terra para fazer o que faço. Sabe quem é, né? Eu”. Quando o assunto são seus planos de adultério, surgem as cenas das desigualdades sexuais e de gênero no Brasil. Delas não escapam sequer aquelas que dormem nas camas da burguesia, recobertas por lençóis de 600 fios ou mais. Selecionei alguns desses trechos.

“Eu já falei para o Francisco, você tem até domingo que vem para comer a (nome de mulher). Se não, eu vou c… Francisco, é trabalho, viu!? Vou te dar até domingo que vem. Se não, eu vou fazer o serviço” (…)“É o seguinte, ou vai no amor ou vai na…(silêncio). (…) “Não é fetiche, não, velho, um de nós tem que botar ela na cama.”

“Eu ando invocado de comer uma velha por aí. Acho que vou comer umas duas véias de 50. Casadinhas.”

“Desde o início, ela – Tici [Ticiane] era acostumada a andar com um bananão. Rapaz, ela sofreu, até ela ver que da minha vida ela não ia saber de nada. Ela bateu, bateu, uma hora ela sublimou, desistiu”,

“Eu estou aqui pensando, rapaz, sabe o quê? A Tici [Ticiane], que é uma mulher inteligente, é diferente da Cris. Se eu tivesse com a Cris eu não ia ter problema nenhum. Mas você já imaginou a Tici, quando eu tiver que contar para ela as minhas traquinagens? (…)

“Eu já tenho a história pronta. Eu vou começar no dia, de manhã cedo. Eu vou acordar dizendo assim ‘quero me separar’. Nós vamos passar o dia em crise. ‘Quero separar’. ‘Não, eu te amo’. ‘Eu quero separar, eu não te mereço’. Aí vai… ‘Eu não te mereço, eu não sou o homem certo para você’. Aí quando ela jurar que me ama e tal eu vou falar: ‘Então, hoje à noite o Willian Bonner vai dar uma notícia’…”

A desqualificação da esposa, a qual presenteou com um vestido de noiva chanel avaliado em 180 mil euros, assim como o tratamento dados às demais mulheres é recheado de muita perversidade. Todas, indistintamente, são vistas como ‘inocentes úteis’ a serviço de sua agenda de negócios e seus interesses sórdidos. Um contexto machista de realismo fantástico no melhor estilo de Nelson Rodrigues!

Infelizmente essa é ainda a triste realidade das mulheres no Brasil, moradoras das periferias ou dos bairros nobres. Acabam sendo literalmente escolhidas como subproduto e servidas como carne barata pra ‘comer’. Na contramão dos processos civilizatórios e democráticos são reforçadas práticas de açougueiros de gente abastecendo vitrines de comilança para machos famintos pela vitalidade fértil e beleza estética do feminino criador!

*Sandra Vidal Nogueira é professora da UFFS Campus Cerro Largo e presidente do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores.

>> Acesse o seu sitewww.sandravidalnogueira.com

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