Ética e Sustentabilidade com Leonardo Boff

 por Volmir Ribeiro do Amaral*

Entre os últimos dias 18 e 21 Leonardo Boff palestrou em Cruz Alta, Três de Maio e Santa Rosa. O teólogo, professor, escritor, assessor dos movimentos populares e conferencista mobilizou grande público em todos esses locais. Sua consistente formação social e acadêmica, evidenciada em seu currículo e publicações, aliada a sua simplicidade e sabedoria, o colocam entre as grandes autoridades mundiais ao se tratar de espiritualidade, ecologia, ética, sustentabilidade, dentre outros.

Brasileiro expoente da Teologia da Libertação, posição esta que, inclusive custou-lhe, em 1985, um ano de silêncio obsequioso, imposto pelo então santo ofício da igreja católica. O que fez de errado? Nada. Suas posições progressistas é que incomodaram a instituição. Atualmente, o teólogo é um defensor e divulgador das reflexões e posições do Papa Francisco. De sua preocupação inicial com o “grito” dos pobres enquanto sacerdote, com o passar do tempo, percebeu que a Terra (conceito amplo que utiliza para se referir ao planeta, ao espaço comum onde todos habitam) também “grita” por socorro, incorporando em sua vida e obra tais defesas. As referências à Carta da Terra e a encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, ambas elaboradas com a importante contribuição de Boff, evidencia bem a relação existente entre espiritualidade e sustentabilidade.

O conferencista também refletiu acerca de outros temas, que aqui discorremos brevemente. Apresentando alguns dados, o escritor afirma que a Terra está adoecendo a cada dia que passa, devido às agressões que recebe, sendo as tempestades e os extremos climáticos reflexos de um planeta doente. Ainda sobre a situação do planeta terra chamou a atenção para o momento crítico que se vive, onde a exploração dos recursos naturais supera em muito a capacidade de reposição da natureza. Segundo Boff, o planeta necessita de um ano e meio para repor os recursos extraídos em um ano. Conforme ele, se o resto do mundo tiver o padrão de consumo dos europeus e norte-americanos seria necessário quatro planetas como o nosso para prover o que se consome.

Isso leva a necessidade de se fazer algumas opções, dentre elas, a adoção de um modo sustentável de vida e a busca pela redução das desigualdades. A desigualdade social existente no mundo e o nível de consumo praticado por alguns não é compatível com um processo de desenvolvimento ético e sustentável. Segundo o professor, o sistema mundial vigente funciona para apenas uma pequena minoria, restando, portanto, a necessidade de construir um sistema onde todos sejam dignamente inclusos. Demonstrando certo otimismo, o escritor acredita que cada vez mais a economia e a vida se orientarão pela ecologia.

Mesmo aos 78 anos de idade, Leonardo Boff é capaz de se indignar com as coisas erradas e também de manter a esperança e agir para modificar a realidade. Como formas concretas de promover a sustentabilidade salienta a importância de reduzir o consumo, reciclar e reutilizar os produtos e preferir alimentos agroecológicos. Cortar os supérfluos da vida. Chamou a atenção também para a necessidade de que todas as pessoas sejam providas de terra, teto e trabalho.

Essa forma de relação com o planeta, com exploração extrema e desregrada, colocou o mundo frente a uma grande crise de sustentabilidade sem precedentes. Precisa-se, com urgência, decidir pela continuidade da vida na Terra. Mas, para isso, precisa-se mudar a forma de relacionamento com o planeta. Além da implantação de um outro modo de vida, há também a necessidade de uma nova forma de pensar. O mesmo pensamento que nos colocou na crise não é capaz de nos tirar dela.

*Volmir Ribeiro do Amaral é Graduado em Filosofia e Mestre em Desenvolvimento (UNIJUÍ).

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