por Sandra Vidal Nogueira*

A cerimônia do casamento, antes restrita aos grupos domésticos, ganhou ares de celebridade com o evento britânico de proporções mundiais: a união entre o Príncipe de Gales, Charles e Diana Spencer, no dia 29 de julho de 1981. Este conto de fadas, acompanhado no dia da celebração por 750 milhões de pessoas, seguiu-se por uma voraz exposição na mídia, levando à morte de Diana (já divorcida!) em 1997.

Com a popularidade das lentas que capturam de imagens por celulares, os casamentos estão em alta no mercado e ganham espaço nas redes sociais. São tratados com a mentalidade de celebridade por um dia e, como tal, a cerimônia e tudo que a cerca, requer uma produção bastante exigente. Nela, encontra-se de tudo. Lista de presentes em lojas especializadas. Spa para noivas. Shows de dança para noivos e padrinhos. Chegada à igreja com belíssimos carros alugados. Enfeites de festa que se assemelham a decoração dos hotéis em Dubai, nos Emirados Árabes. Para não falar no vestido sensualíssimo da noiva, nos tecidos e tonalidades orquestradas nas roupas dos padrinhos, além, das cirurgias plásticas feitas para a exposição de corpos esculturais na festa.

Tanto esforço empenhado e investimento financeiro para tudo parecer perfeito! Afinal, a qualidade da produção do evento carrega em si um valor social agregado e nele está incluso os gastos, a beleza, o bom gosto, o número, o status e o prestígio dos convidados. Pouco importa se letra e melodia coreografadas não tenham relação alguma com a tradição religiosa do ritual. É preciso fazer sentido nos hits de sucesso. Ou ainda, se o casal possui herança familiar rural e não faça uso da beleza dos verdes campos de sua terra como cenário.

Em suaves prestações de 12, 24, 36 ou 48 meses, pessoas de diferentes classes sociais compram imagens que desejam possuir, credenciando socialmente a nova família, na utopia ‘de que uma festa basta’ para a obtenção do casamento de sucesso. Afinal, não é assim que são os espetáculos? Criam a atmosfera de eternidade por serem impactantes.

Absolutamente iludidos com a aparente felicidade do mundo das celebridades, a realidade nos bastidores da cerimônia não deve ser jamais revelada. Chega a ser algo profano! Este é o acordo pactuado silenciosamente. Identidade de tradições? Pertencimento geracional e de etnias? Vestuário, comidas e músicas típicas da Região? Valorização do turismo e das riquezas naturais da nação? Quem está preocupado com essas coisas? Tudo precisa ser perfeitamente artificial para que o espetáculo aconteça!

Quem ganha esse tipo de casamento são as empresas especializadas e seus profissionais, disputadíssimos num mercado lucrativo. É claro que, para quem produz casamentos, a cerimônia é uma mercadoria. Mas, para quem casa, é um rito de passagem importante. Observa-se, contudo, que esse ritual não se esvaziou. As questões essenciais que ensejam foram ofuscadas pelo aparato do espetáculo. É, pois, momento de dar relevo a elas!

O sucesso do casamento não é garantido pela rolagem de fotos numa tela ou pelo assistir passivo de vídeos. A Princesa Daina, Lady Di, como carinhosamente ficou conhecida e se eternizou, descobriu isso já na lua de mel, quando se deparou com seu marido usando o suéter dado pela amante, Camilla Parker-Bowles, nas fotografias oficiais. De lá para cá passados 36 anos, o espetáculo, antes só restrito à nobreza, chegou irrestritamente ao alcance das pessoas ao redor do mundo.

Que o desenrolar da história desses Princípes sirva, ainda, de alerta contemporâneo na superação da ilusão criada pela sociedade do espetáculo. A cerimônia de casamento, concebida na perspectiva da constituição da vida privada coletiva, carece de uma consciente e profunda reflexão e autocritica. Doses de realidade são mais do que necessárias! Uma nação forte e soberana deve se ocupar de preparar melhor homens e mulheres, dando-lhes formação qualificada como protagonistas sociais no cotidiano de casais e não somente financiar atuações de turistas em vidas de casados, realizando ensaios de personagens para enredos de ficção e selfs com filtros de imagens.

Portanto, deixem as portas se abrirem para a entrada de noivos, suas famílias, seus amigos, seus convidados. Que os ambientes sejam agradáveis e aprazíveis com estilo personalizado. Que cada um seja bem recebido como único e desfrute do que de melhor possam lhe ofertar. Mas que alguns meses e anos depois, possam ser reconhecidos nas ruas, nos bairros e nas cidades pelo desempenho diferenciado como casais, pais e cidadãos em suas famílias e em seu próprio País.

*Sandra Vidal Nogueira é professora universitária da UFFS Campus Cerro Largo e presidente do Partido dos Trabalhadores daquela cidade.

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