por Ana Maria de Oliveira (*)

O clima buliçoso em que se encontra nosso país tem provocado, ou minimamente possibilitado, um certo mal-estar. Principalmente quando as conversas giram em torno da intervenção militar no Rio de Janeiro.
Parte das opiniões é favorável, especialmente a das pessoas que convivem diariamente com o risco de um roubo, um assalto ou uma bala perdida. Tod@s querem ir para o trabalho (quem o tem) e poder voltar para casa com a integridade física preservada e sem danos psicológicos. O voltar para casa é simbólico, pois para além do espaço físico familiar, proporciona a noção de pertencimento a todo seu entorno: vizinhança, pequenos comércios, escola, igreja, posto de saúde. Tal pertencimento favorece a sensação de segurança.

Por isso, uma parcela da população aplaude a tomada dos morros e favelas no RJ, depositando na presença do exército a esperança de uma certa limpeza que, consequentemente, diminuiria a ameaça de várias formas de violência. Afinal, um dos objetivos fundamentais da nossa República é “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, CF/88, Art.3º, IV.

Do outro lado estão as pessoas que não acreditam em resultados positivos através desse tipo de interferência, pois defendem a mudança através da educação e de condições dignas de vida. Sob a ótica dessa parcela da sociedade brasileira, em um Estado Democrático de Direito, o alicerce de sustentação é a dignidade da pessoa humana, prevista na CF/88, Art. 1º, III. (A propósito, por que pessoa humana?).

Quando assunto tão delicado e importante povoa o noticiário, os jornais, as redes sociais e é o tema do café, do almoço, da janta e dos intervalos cada um/a tem solução: “precisa tirar as crianças do tráfico”, “tem que ter pena de morte”, “bandido bom é bandido morto”, “a educação, a saúde e a cultura precisam subir o morro”, e assim por diante. Percebem a neutralidade dos verbos? Afinal, quem é o sujeito executor de tais ações? Se a pergunta for dirigida a alguém na rua provavelmente a resposta será: “o governo.” Mas, o que é o governo? Quem é o governo?

Ontem, li uma entrevista da qual passarei a transcrever trechos, deixando, propositalmente, de mencionar a pessoa entrevistada para evitar um pré-julgamento e permitir que você, leitor@, possa emitir livremente o seu pensar a respeito das opiniões manifestadas sobre a relação entre o tráfico, a violência e a intervenção militar no Rio:

“Os problemas do Rio não se resolvem com exército ou polícia”.
“Você acha que não tem corrupção no exército? […] alguns militares falavam pros nossos soldados: ‘poxa, não fica com fuzil na rua não, esconde isso porque depois a gente leva bronca do sargento’”.
“Você acha que os políticos não sabem como resolver os problemas da violência?”
“Além de investir em educação, se você quer acabar com o tráfico você precisa legalizar as drogas. Quer tirar todo o poder do traficante? É só legalizar”.
“Não adianta só legalizar. É preciso falar sobre isso nas escolas. Ensinar desde cedo o que é a droga”.
“E o helicoca? Quem foi preso? E o filho da desembargadora?”
“Eu não acho que o brasileiro vai fazer igual o pessoal fez nos Estados Unidos, e eleger um cara como o Trump.”
“Sem o PCC São Paulo ia virar um inferno. Quem você acha que acabou com com a violência lá? Foi o Estado por acaso?”
Se eu me arrependo? Claro que não. Que pai não faria o que eu fiz pra salvar a vida da própria filha?”.
Bem, se você leu até aqui e imagina que as falas são de algum sociólogo, filósofo ou antropólogo…não. Elas são o resultado de uma entrevista feita pelo jornal El País, concedida por Antônio Bonfim Lopes, dentro da penitenciária federal de Porto Velho – Rondônia, o qual é popularmente conhecido como Nem da Rocinha.

(*) Professora e Acadêmica de Direito na FEMA.

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