A Literatura e a Escola

por Paulo Heitor Fernandes*

Antônio Cândido (1918-2017) – sociólogo e maior crítico literário do Brasil – tão pronto promulgada a Constituição (1988), disse, em um de seus artigos publicado em jornal paulista, que a Carta de tantos direitos e poucos deveres, não consagrou expressamente, “o direito à literatura”, referindo-se ao papel da literatura na arte como parte dos direitos humanos. Sustentava que a fruição da arte é um “direito básico” e negar a fruição da literatura implica em mutilar a nossa humanidade. “A literatura – asseverava – é “um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar situações de restrição dos direitos humanos”.

Não sei se o editorial chegou a despertar a atenção dos legisladores, no plano nacional, mas só em 2010 (lei federal nº 12.224) foi disposta a obrigação para as instituições de ensino de terem biblioteca e bibliotecário(a). Pior, a imposição legal – como a maioria das obrigações neste País não são guardadas – permanece no “limbo”: as escolas não têm bibliotecas (poucas as que têm) e, menos ainda, têm bibliotecário(a) – no Rio Grande do Sul, as 2.539 escolas têm somente 20 bibliotecários(as), destarte 250 bibliotecas escolares estão fechadas (0,7% funcionando).

A falta de bibliotecas nas escolas também reflete no baixo número de estudantes leitores, embora o principal fator seja que os estudantes não leem, não sabem ler ou não entendem o que leem (são analfabetos funcionais como 80 milhões de brasileiros), situação que precisa de muitos anos para ser superada.

A população brasileira, segundo o Instituto do Pró-Livro, lê pouco (56% apenas, sendo destes 42% leitores da Bíblia e 22% leitores de livros religiosos; os 44% restantes dividem-se, por igual, entre contos e romances. No levantamento, consideram-se leitores os que leem um livro em cada três meses. No Brasil, a média de leitura é de 4,96 livros/ano, no Rio Grande do Sul, a média baixa para 4,41.

A situação é de desencanto, mas o meu desapontamento é maior ainda, porque fui instruído a ler um livro por semana, no curso fundamental e – para não me alinhar na cartilha dos “queremistas” de Getúlio Vargas, recém-eleito, pelo voto, à presidência da República – tinha ainda temas de casa: ler o Correio do Povo, o Estado do Rio Grande (jornal do Partido Libertador) e jornais do Rio (com quatro ou cinco dias de atraso) sobre a política nacional. No ginásio, sem prejuízo das leituras obrigatórias, de aula e de casa, fui “trabalhado” em leituras de contos juvenis e romances. No curso médio, fui “embrenhado”, na escola e na biblioteca dos avós, nas leituras ditas clássicas (grega, latina, portuguesa, espanhola e brasileira).

As editoras e clubes de livros do mundo editam 50 mil obras por mês (recentemente clássicos como Victor Hugo, Liev Tolstoi, A. Conan Doyle, Henry Rider Haggard, Júlio Verne e até autores brasileiros como Monteiro Lobato). E o Brasil?

O Brasil gasta 8% do PIB em educação (ou pelo menos reza que gasta – ou aplica mal) e as escolas não têm bibliotecas e nem bibliotecários (as) e os professores (que se dizem “trabalhadores de educação”) são mal remunerados. A história – é o que se constata – gerou uma imensidão de culturas, desenvolvidas por diferentes processos isolados de educação e de avaliações de experiências repletas de atitudes típicas da espécie, que forjaram nações, relações entre os indivíduos e, finalmente, o que somos hoje, uma humanidade explorando um planeta limitado, cada vez mais conectado e, questionando as culturas. O que realmente pensamos no Brasil? O que pensamos para o futuro? Ouço todos os dias, de inúmeras bocas, que o sucesso nacional passa pelas crianças (ou começa pelas crianças) e, então, a pergunta: estamos educando as pessoas, especialmente as crianças? Quando vai mudar o ideal familiar que o filho tem que ser jogador de futebol (ou pior, “aviãozinho do tráfico”), a mulher modelo, manequim, ou artista de novela, sem, ao menos, uma educação proficiente para competir por um lugar melhor na sociedade?

O descuido dos governos com a estrutura escolar e o despreparo do magistério está se desviando do ideal nacional, de bem-estar e desenvolvimento social. Isso é causa da evasão escolar (que é enorme) e da consequente violência, um mal global que não deixa de se vincular à escola. A escola precisa ser repensada. A capacitação do corpo docente é fundamental, mas também são necessários os instrumentos: laboratórios, bibliotecas e etc.

Vargas Llosa, diz que “a literatura sempre teve inimigos” – digo eu, até mesmo os que ensinam literatura, que olham primeiro para a pessoa do autor e não prioritariamente para o que escreve. As censuras religiosas (que acenderam fogueiras para queimar escritores e livros), as ditaduras totalitárias (fascismo, nazismo, comunismo, que mantiveram a tradição de queimar livros e banir autores para os campos de extermínio), as “democracias” que se omitem, faltando com livros, inibindo a leitura (e em última instância, a cultura) estão limitando a sociedade nacional. O resultado de uma sociedade que não se informa, que não lê (e troca a literatura pela maledicência da ira gratuita da internet, ou do preconceito e da discriminação insultuosa, ou ainda da irresponsabilidade das novelas de TV) é a desagregação social, é a falta de higienização político-social, que emporcalha o meio com desmandos, maracutaias e corrupção, tão nocivos à coletividade.

O direito à literatura não pode ser sopitado.

O pior pecado não é o da transgressão, mas sim o da omissão. Graças aos omissos é que os aproveitadores, transgressores ativos, prevalecem (e não raramente, impunes).

* pH Fernandes é Patrono da 14ª Feira do Livro de Santa Rosa.

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