por Sabrina Ferraz (*)

Em histórias distópicas, a organização da sociedade comumente se apresenta de modo amedrontador e totalmente desumanizado. No entanto, acredito que aquilo que mais nos assusta quando diante de histórias assim, diz respeito às características nelas retratadas que somos capazes de reconhecer no mundo em que vivemos. Leitores do romance O conto da aia, livro da escritora canadense Margaret Atwood, publicado em 1985, e/ou espectadores da série de televisão estadunidense The Handmaid’s Tale, baseada no livro de Atwood, têm, diante de seus olhos, uma sociedade patriarcal que relega à mulher a função exclusiva da reprodução e manutenção do lar, excluindo-as da tomada de decisões e também dos espaços públicos.

A organização da sociedade retratada tanto no livro quanto na série é feita a partir da Bíblia, enfocando, sobretudo, a história de Jacó e Raquel, contida em Gênesis 30:1-5:

“Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro.
Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?

E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela.
Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu.
E concebeu Bila, e deu a Jacó um filho.”

Deste modo, o papel desempenhado pelas mulheres é determinado por uma história bíblica e se restringe somente a ela, encarcerando as mulheres no ciclo da reprodução, não permitindo nada além disso.

Eis que o deputado federal Márcio Labre (PSL/RJ) decide apresentar um projeto de lei que pretende proibir o uso de pílula do dia seguinte, DIU e outros métodos contraceptivos que, segundo a proposta, “provoquem a morte do ser humano já concebido, ao longo de toda sua gestação, sobretudo antes da implantação no endométrio”. Tais métodos são chamados pelo deputado de micro abortivos, e teriam como “efeito real […] a indução do aborto na fase inicial da gestação, que se inicia na concepção e vai até a implantação da criança no útero”. Para encerrar sua justificativa, o parlamentar diz contar com a proteção de Deus (como tem sido praxe no atual governo) e com os movimentos pró-vida, para que alcance a aprovação de seu projeto de lei.

Conforme o texto da proposta, as mulheres brasileiras, assim como as aias em The handmaid’s tale, estariam proibidas de decidir como viver suas vidas, visto que a elas estaria vedado o direito de decidir sobre a maternidade. A proposta, por mais estapafúrdia que seja, traz à tona novamente a ideia de que nós, mulheres, somos seres sacros criados por Deus exclusivamente para a reprodução, para a manutenção da espécie. Estaria excluída qualquer possibilidade de optar por não ter filhos – alguns mais exaltados podem argumentar que se não quer filhos é só não ter relações sexuais com homens, argumento que também deixa claro que se nega à mulher a possibilidade de sentir prazer – e, além disso, decidir quando ter filhos.

Novamente, e já estamos cansadas de argumentar quanto à isso, vemos um homem apresentando propostas que interferem diretamente na vida das mulheres sem sequer buscar saber a nossa opinião sobre. É preciso cuidado, pois uma proposta como essa evidencia o papel que o novo governo relega às mulheres, excluindo-as do debate e tratando-as como incapazes de tomarem suas próprias decisões. É preciso atenção para que a nossa situação não seja simbolizada pela cena protagonizada pelo deputado estadual Amauri Ribeiro (PRP-GO), que tomou posse com a esposa sentada em seu colo, contrariando o regimento interno da Câmara.

Nosso lugar nos espaços públicos não pode ser delimitado ao colo de um homem. Não é aceitável que um parlamentar acredite ter o direito de decidir sobre nossas vidas. Nesse momento, é preciso força e luta para que a sociedade de Handmaid’s tale se mantenha apenas na distopia criada por Margaret Atwood. Mais uma vez, é aterrorizante quando uma história distópica se aproxima tanto de nossa realidade – ou do que alguns projetam para ela.

(*) Sabrina Ferraz

Formada em Letras pela Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Cerro Largo (RS).

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