por Iur Priebe de Souza (*)

Em uma conversa com um poeta, eu divagava sobre os meus favoritos. Começou com Neruda e Leminsky. Falei de Camões, Byron, Baudelaire… O poeta me disse que eu esquecera o maior deles Lorca… Pois é. O Grande Federico, Genial na vida e na morte, foi fuzilado por fascistas durante a Guerra Civil espanhola. Uns dizem que foi devido a sua orientação sexual. Outros porque seria parte da campanha de assassinatos em massa que visava a eliminar apoiadores da Frente Popular Marxista. De qualquer forma ele foi muitíssimo mais valente que os covardes que o assassinaram. Morreu declamando poesia perante seus executores em março de 1937,

Lembrei também de um ao qual tenho especial apreço. Fernando Pessoa – e toda sua trupe interior: seus maravilhosos heterônimos.
Álvaro de Campos era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, playboy viajador que se sentia estrangeiro em qualquer lugar. Desse cara recomendo “Tabacaria”… e todo o resto que ele escreveu. Morreu pouco antes dos anos vinte.. Não sei exatamente como. Acho que deu muito trabalho pra Fernando Pessoa, pois mudava de estilo constantemente, tava sempre evoluindo; tinha um bicho carpinteiro… não parava nunca.

Tinha tambem o Alberto Caieiro… esse era massa. Foi o único que nunca escreveu em prosa… Acreditava que só a poesia era pica, e tal, e que só ela poderia descrever a realidade. Nasceu em Lisboa mas viveu quase toda sua vida como camponês. Morreu pobre e com tuberculose pouco antes da morte do original em 1935. É considerado o mestre dos heterônimos até pelo próprio Pessoa,

Tem ainda o meio heterônimo Bernardo Soares que escreveu o “Livro do Desassossego” e era um mero guarda-livros.
O último heterônimo era o médico Ricardo Reis, um chato de galochas, Chato sim, mas muito interessante. Se declarava latinista e monarquista… vai entender. Queria ser a última chama clássica na literatura ocidental. “Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas do barro, há cheia nas lezírias.” é um exemplo do tipo de coisa que Reis escrevia. Era fissurado por uma musa clássica fictícia chamada Lidia e que aparece em muitas de suas poesias.
Como eu disse, ele era um chato.Ficou puto porque foi declarada a república em Portugal e se mudou pro Brasil. Abriu uma clínica de doenças tropicais na Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro, Sério. Ricardo Reis morava no Rio e Fernando Pessoa morava em Lisboa – e eles eram a mesma Pessoa ( 😊 ). Véi: só a poesia pra fazer um troço desses.
Acontece que quando Fernando morreu no dia 30 de novembro de 1935, de cirrose por ser muito pinguço, segundo dizem, Ricardo Reis permaneceu vivo. Ficou alheio e protegido na linda e fedorenta cidade do Rio de Janeiro da época de Vargas, impedido de morrer pois a única Pessoa ( 😊 ) que poderia dar fim à sua vida estava morta.
A situação perdurou até 1984, quando o genial, soberbo, humano, ateu e comunista José Saramago resolveu o problema do médico chato e o matou.
O crime ocorreu em Lisboa em 1937, acho… Faz tempo que li o livro “O Ano da Morte De Ricardo Reis”. Uma obra que, de tão poderosa, me largou caído no meio da sala após a leitura…
Saramago, que não era poeta assim, propriamente poeta, escreveu um dos romances mais poéticos que já li…. Recomendo a leitura e vou dar um spoiler: Lidia é materializada pelo escritor português no corpo da mulher a dias (faxineira, empregada ou similar em Portugal).
Véi, Literatura e um troço tão doido quanto Poesia.

(*) Iur Priebe de Souza

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