por Sabrina Ferraz (*)

 “Mulher, a culpa que tu carrega não é tua
Divide o fardo comigo dessa vez”

Só esse ano, 126 mulheres já foram assassinadas no Brasil apenas por serem mulheres, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Já teve deputado protocolando projeto de lei que proíbe métodos contraceptivos, quer dizer, cerceando o direito da mulher sobre seu próprio corpo. Querem discutir local adequado para a mulher amamentar. Se você digitar “mulher no Brasil” na guia de busca do Google, irá encontrar vários títulos sobre a violência sofrida pelas mulheres nesse país, sobre o quanto dói ser mulher por aqui.

Diante de tanta dor, a gente segue. Levanta as nossas bandeiras porque, como diria Adélia Prado, “vai carregar bandeira”, e a gente carrega. Carregamos em nosso corpo nossas dores e alegrais, nossa fortaleza e nossa fragilidade. Nosso corpo objeto, abjeto, produto de mercado, comercializado, usado a força. Nosso corpo sem voz. Temos horários e lugares para andar, caso queiramos sobreviver. Devemos ficar caladas, apenas balançando a cabeça em sinal afirmativo.

Mas eu quero dizer não, eu quero poder dizer não. Eu quero ter esse direito. Eu quero dizer não sem ser violentada, sem ser espancada, sem ser ridicularizada, sem ser chamada de louca por aquilo que falo e também pelo que calo. Eu quero dizer não. Eu não quero ter de escolher o caminho mais seguro, porque posso ter altas chances de não sobreviver caso passe por outro lugar, e também posso não sobreviver caso vá pelo caminho mais seguro. Eu quero não ter de esconder o meu corpo para não soar como “provocação”. Eu quero não precisar ter um mini manual de guerrilheira urbana para sobreviver.

Mulher precisa ser forte o tempo todo, porque ser fraca é aquilo que mais afirmam sobre nós. O sexo frágil, irracional, incapaz. Ninguém acredita na gente. Somente nós acreditamos umas nas outras. E vamos seguir acreditando, vamos acreditar também naquelas que ainda não entenderam que aquilo que fazemos uma pela outra, fazemos por todas. Nossa força vem de nossa união, mesmo que não saibamos ou ainda não tenhamos entendido isso.

Nunca fomos rivais. Minha força vem de minha mãe, de minha avó, de todas as mulheres que passaram pelo meu caminho e que me fizeram quem eu sou. E eu sou forte, e espero que você também encontre a sua força e que ande com ela, encontrando a força de outras pelo seu caminho, e que nos encontremos todas. Quando estamos juntas, somos ainda mais fortes. Que a nossa dor de cada dia seja nossa força, que carreguemos em nossa luta todas aquelas que foram vítimas do machismo que nos mata a cada dia, que andemos de mãos dadas. Nós não estamos sozinhas, nós temos umas às outras.

Eu tenho pressa e eu quero ir pra rua
Quero ganhar a luta que eu travei
Eu quero andar pelo mundo afora
Vestida de brilho e flor. ”

(*) Sabrina Ferraz é formada em Letras pela Universidade Federal da Fronteira Sul, campus Cerro Largo.

 

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