Por Cristine Pires, para Coletiva.net

Pedir para fazer trabalhos de graça é desrespeitar o outro como profissional.

– Preciso de um médico veterinário especialista em Dermatologia. Tu tens como atender na minha clínica umas horinhas por semana? É uma oportunidade de agregares novos clientes para o futuro, uma chance como poucas!

– Estamos sem estrutura no Departamento Financeiro. Vou mandar uns boletos para vocês imprimirem e cobrarem para nós. Daí liberamos, como cortesia, alguns ingressos para que vocês participem de nossos cursos, que são uma oportunidade ímpar de qualificação!

– Posso enviar uns processos para o Jurídico de vocês analisarem? Sabe como é, uma mão lava a outra. Uma hora, a gente ajuda aqui com algo que vocês precisarem. Parceria é fundamental!

Vocês já ouviram alguma proposta assim? Poucas vezes, não é mesmo? Elas soam absurdas? Porque realmente são.

E quanto a essas?

– Terias como fotografar os 15 anos da minha filha? Serão muitos convidados influentes e terás a chance de captá-los como clientes! Uma oportunidade imperdível!

– Minha associação precisa de um informativo. Teu setor de comunicação faz? Podemos oferecer a vocês algum tipo de compensação depois.

– Necessito de uma arte para este evento. É só colocar um título e a foto. Em cinco minutinhos tu fazes para mim, né? É rapidinho! Em troca, daremos uns ingressos para vocês participarem.

Elas soam absurdas? Infelizmente, para muita gente, não. E é uma cena recorrente para jornalistas que atuam nas mais diversas áreas: escrita, design gráfico, diagramação, fotografia.

Essas “parcerias”, além de uma forma de explorar a qualificação sem remuneração, representam o total desrespeito ao outro enquanto profissional.

Basta ver que, na maioria das vezes, essas “grandes oportunidades” não trazem vantagem alguma para o “parceiro” fornecedor do serviço. Pode até haver algum tipo de benefício em determinados casos, mas ele não chega realmente ao executor do trabalho. É o caso, por exemplo, da oferta de cursos de qualificação, que em grande parte são em áreas que não a de atuação do profissional de comunicação.

Mas você pode estar se perguntando: “Se é tão absurdo, por que essas parcerias são aceitas?”.

Porque, muitas vezes, o profissional fica em uma situação muito delicada em recusar, já que a proposta parte da sua chefia, e pelos mais variados motivos.

Às vezes, a “parceria” é para ser feita fora do horário do expediente, atendendo a um pedido do chefe que quer ajudar algum amigo, um parente ou um colega de negócios. Pode ser um trabalho de interesse da própria chefia, também.

Em outros momentos, o setor de Comunicação vira moeda de barganha, pois recebe demandas de outras empresas ou entidades que não são a que lhe contratou. É a ele que cabe o papel da “política de boa vizinhança” quando alguém precisa de um favor. “Pede para a Comunicação fazer”.

E se vem a sugestão: “vocês têm uma grande demanda, contratem um jornalista para atender!”, a resposta, normalmente, é: “não temos dinheiro para isso”. Se não têm dinheiro para contratar um jornalista, então não façam. Escolham outras formas de se comunicar com seu público. Utilizem os recursos humanos disponíveis em sua empresa ou entidade. Mas não explorem a qualificação de quem não está sendo pago para isso.

Quem faz esse tipo de proposta absurda deveria pensar como reagiria se recebesse a mesma oferta dentro da sua área de atuação. Talvez, assim, pensasse duas vezes, e evitasse cometer esse erro.

Cristine Pires é jornalista.

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